Olá de novo!
Chegamos à segunda metade de julho e, com ela, à quarta aventura de Kamau e Selhara.
Para quem chegou agora ou perdeu os episódios anteriores, meu Substack possui uma aba chamada “Kamau e Selhara — Episódios”. Nela, os contos estão organizados pela ordem de publicação, que também corresponde à cronologia da história, apesar da estrutura episódica relativamente livre da série. Tudo começa com “A Carne da Feiticeira Virgem”, publicado em 8 de junho de 2026, e avança até este episódio.
Uma curiosidade: este é o conto mais longo até agora, com 6.841 palavras. Somados, os quatro primeiros episódios já chegam a 17.705 palavras. Se Kamau e Selhara estivesse sendo publicado no formato de um livro, já estaríamos nos aproximando das primeiras cem páginas.
Desta vez, retornamos diretamente às consequências da história que iniciou tudo.
Quando Selhara deixou a fortaleza das Imaculadas, acreditava estar fazendo uma escolha individual. Contudo, havia alguém de guarda naquela noite. Agora Malaika, sua irmã de ordem, precisa encontrá-la e conter os danos provocados pela fuga.
Enquanto isso, os acontecimentos na caverna ganharam vida própria. Uma profecia foi reinterpretada, novos devotos surgiram e aquilo que deveria permanecer em segredo começou a circular por todo o reino.
Em “Ruptura”, uma decisão pessoal produz consequências religiosas, institucionais e familiares que nenhuma das envolvidas poderia prever.
Boa leitura.
E agora mais uma aventura de Kamau e Selhara.
Episódio de hoje: Ruptura
por Yakko S. Glaser
A lua ainda estava em perigeu quando os primeiros Ungidos chegaram.
Eram sete. Todos queriam ter estado ali, mas tiveram azar ou não fizeram lances altos o suficiente no sorteio sagrado. Nos dias anteriores, surgiram acusações de trapaça e de bolas marcadas. Nada foi provado.
Agora retornavam cabisbaixos, carregando tochas e o peso amargo de terem perdido o evento mais importante da história contemporânea.
O mais velho, um homem magro chamado Dayo, mantinha a lanterna erguida sobre o massacre.
— Vejam — sussurrou, com a voz trêmula de emoção. — O número sagrado se cumpriu. Treze caíram sob o mesmo teto. Chike está entre eles… então a contagem não incluía o corpo da Virgem!
Outra figura encapuzada, uma mulher de ombros largos chamada Veyra, franziu a testa.
— Não faz sentido. A carne dela teria de ter sido rompida sobre o altar. A profecia é clara.
Um terceiro devoto, jovem e nervoso, chamado Donkor, remexeu o baú encostado na parede. Ergueu o que restava de uma das vestes brancas, deixando o pó cinzento escorrer entre os dedos.
— As roupas dela… estão aqui. Ou o que sobrou delas. O uniforme das Intactas. Todos sabem que esses tecidos rejeitam qualquer mácula. Se foram destruídos… isso só pode significar uma coisa.
Dayo respirou fundo, em um gesto quase reverente.
— O coração dela foi preenchido pela corrupção. A profecia tinha de se cumprir, de uma forma ou de outra.
Veyra soltou uma risada seca.
— Corrupção? Isso aqui não é corrupção, Dayo. Isso aqui é uma bagunça de taverna. Tua mãe pode nunca ter te deixado ir a um lugar desses, mas eu conheço bem.
Ela se aproximou do altar e apontou para as manchas, com nojo. Um devoto mais curioso já estava de quatro, examinando-as com uma lupa de bronze que trazia pendurada no pescoço.
— Há sangue aqui… bastante. E mais algumas coisas. Fluido branco, leitoso, pegajoso… cheiro ácido e, vamos ver… — Tocou uma das manchas com a ponta do dedo e provou. — Gosto adocicado. Talvez seja… talvez seja. — Provou mais um pouco. — Sim, definitivamente fizeram sexo aqui.
Um silêncio desconfortável pairou por alguns segundos. Depois explodiu.
— Então a carne da Virgem foi rompida! — exclamou Donkor, com os olhos brilhando. — A lua estava certa, treze caíram… Há uma chance considerável de termos interpretado tudo errado e de a profecia ter sido cumprida! Se for verdade, ela agora carrega o Quarto Filho no ventre! Bendita seja a feiticeira!
— Realizou coisa nenhuma! — Veyra empurrou Dayo pelo ombro. — Isso foi profanação, não cumprimento! O Condutor deveria estar tomado por iluminação tóxica, não por cachaça barata e luxúria! Olhem o chão! Tem vômito misturado com tudo! O sumo-sacerdote morreu afogado em álcool e bílis!
Dayo tentou manter a dignidade.
— A profecia não fala em elegância. Fala em resultado. Treze mortos. Carne rompida. Coração corrompido. Disseram que um caçador secular de dragões esteve aqui. Olhe a forma como os corpos foram cortados. Só pode ter sido ele. Bate com todas as descrições!
— Impossível. Ele estava tão bêbado que vomitou uma cachoeira em cima do nosso líder! — berrou Veyra, já empurrando outro cultista que começava a concordar com Dayo. — Isso não é a concepção do Quarto Filho do Artífice! Ela transou com um caçador de dragões bêbado, entende? No máximo, conseguiu herpes.
A discussão subiu de tom em segundos. Empurrões viraram puxões de capuz. Alguém deu um tapa. Dayo tentou separar a briga e levou um soco no nariz. Dois devotos rolavam pelo chão, um tentando estrangular o outro com o cordão do próprio manto enquanto gritava:
— Ela só pode estar grávida do filho do Artífice!
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Chamaram-na na manhã seguinte por meio da carta selada padrão, que informava apenas o local e a sala em que devia comparecer.
Malaika apresentou-se pontualmente. As cinco grã-mestres já formavam um semicírculo voltado para a entrada. Estavam com as mãos cruzadas e expressões cerimoniais. A feiticeira parou diante delas e aguardou que começassem o que quer que pretendessem fazer com ela.
A mais velha iniciou, com a voz que usava para julgamentos:
— Durante a véspera notívaga, éreis vós a sentinela investida na custódia do umbral da irmandade.
— Sim — confirmou Malaika.
Elas pareceram satisfeitas. Talvez fosse apenas um teste de vocabulário, e reafirmar o óbvio bastasse para encerrar a situação e sair logo dali.
— E aquiesceu a deslocações.
— Sim, mas apenas de membros da irmandade. Os nobres do reino do oeste que tentaram entrar para tirar fotos foram barrados.
As grã-mestres entreolharam-se. A mais baixa, instrutora de culinária e crochê, que nunca tivera muita paciência para a escolha de palavras da mais velha, disse:
— Não estamos tratando de visitantes externos.
Malaika esperou. Pessoas velhas tendem a ficar dramáticas. Fez uma anotação mental para nunca ficar assim.
— Houve saídas — disse a mais velha, já sem paciência e simplificando o vocabulário.
— Durante o seu turno — emendou outra.
Malaika começou a contar nos dedos. Percebeu o que estava fazendo no meio do gesto e parou.
— Seis saídas. Todas registradas. Não. Espera. Adanna saiu, voltou para pegar um chapéu e saiu de novo. Conta como duas saídas registradas. Sete então. Desculpe, foram sete saídas.
— Estamos falando de Selhara.
— Uma saída não autorizada — completou outra grã-mestre.
Malaika tentou reencaixar aquilo no protocolo. Devia ser um teste. Uma armação pedagógica. Já tinham feito antes.
— Isso não corresponde ao comportamento esperado de uma imaculada da linhagem dela — arriscou.
— Não corresponde — confirmou a mais velha. — Ela simplesmente saiu. Sem violência nem tentativa de ocultação.
— Você a observou sair — disse a mais baixa delas.
Sim. Ela se lembrava. Tinha cumprimentado Selhara na noite anterior e, por um instante, ficado curiosa sobre o que ela faria na rua. As mestras às vezes inventavam testes assim. Houve até aquela vez em que…
— Você não interveio.
Malaika engoliu em seco.
— Não observei indicação de necessidade de intervenção.
— Você está dizendo que avaliou como deslocamento autorizado?
— Sim.
A grã-mestre mais velha abaixou as mãos. A voz cerimonial foi embora junto.
— Por que você a deixou sair?
Foi ali que Malaika confirmou que elas não tinham protocolo. Estavam tão perdidas quanto ela. A pergunta não era retórica. Queriam uma explicação que fizesse sentido, qualquer explicação, e isso as tornava mais perigosas.
— Não há precedente para saída voluntária após a formação completa.
Uma das grã-mestres inclinou a cabeça.
— Mas há precedente para falha.
— Apenas entre meninas muito novas — disse Malaika.
Sabia que nem todas as iniciadas sobreviviam ao treinamento. Algumas tentavam fugir. Não chegavam longe. Por isso, complementou:
— Nunca na idade de Selhara.
— Então, onde ela está? — perguntou a grã-mestre mais nova.
— Não sei. Ela não retornou. Pelo menos não no meu turno.
A mais velha interveio:
— Então houve ruptura.
Algumas baixaram a cabeça ao ouvirem a palavra.
Em seguida, todas no semicírculo voltaram-se para Malaika.
— Ela não poderia ter se perdido no deserto? Estar tentando voltar? Pode ter saído por um bom motivo. Às vezes o banheiro das iniciadas fica… — começou a jovem feiticeira.
— Você sabe o que isso representa? — cortou a mais velha. — Risco externo… e interno.
Malaika assentiu devagar.
— Sim.
A idosa prosseguiu:
— O que você pretende fazer?
Como assim, o que ela pretendia fazer? O pior é que isso era uma pergunta real. Não tinham resposta. Estavam esperando a dela.
— Corrigir?
Elas pareceram aliviadas, o que foi perturbador.
— Como?
— Localizar. Avaliar. Trazer de volta antes que alguém perceba a fuga. — Malaika estava improvisando e sabia disso. — Conter o dano.
— Você se voluntaria.
Não era uma pergunta.
— Sim.
— Por quê?
— Eu estava na porta. Era minha responsabilidade.
As grã-mestres se entreolharam, assentindo levemente.
Malaika achou que devia completar:
— Se outra for enviada, a falha permanece associada a mim. Em cada avaliação futura.
Elas trocaram outro olhar, agora surpresas. Foi então que Malaika percebeu que provavelmente pretendiam apenas torturá-la um pouco e deixar por isso mesmo. Agora era tarde.
— Você deve recuperá-la — disse a mais velha — e eliminar qualquer um que a tenha visto.
Qualquer um. Malaika calculou rapidamente.
— E se tiver sido muita gente? Se ela tiver ido parar em uma festa com mais de cinquenta pessoas?
A grã-mestre mais nova, recém-empossada, ainda com o rosto errado para aquela sala, soltou uma gargalhada.
As outras quatro se voltaram para ela.
— Desculpem — disse, envergonhada.
A mais velha continuou:
— Não vai acontecer. Mas não gere mortes que causem dano maior do que a própria fuga. Se algum nobre, Emasculado ou caçador de dragões a viu, apenas traga-a de volta e reporte.
— Apenas contenção — disse a mais nova, ainda se recuperando e tentando ser útil.
— Ela já entendeu. — A mais velha olhou para Malaika. — Agora vá.
🐲
Os corredores mantinham o ritmo habitual. Apesar da urgência que lhe fora imposta, a irmandade continuava funcionando.
Malaika foi aos seus aposentos, arrumou a mochila e atravessou a fortaleza até a porta principal. Uma guarda ocupava seu posto ali. A feiticeira parou diante dela.
— Bom dia.
— Bom dia.
A guarda deu um passo lateral, abrindo passagem. Malaika atravessou o pórtico. Então se deu conta de que a outra também não fizera qualquer pergunta, verificação ou tentativa de contenção.
Ela avançou alguns passos sobre a areia. Parou e olhou para trás. A irmã de ordem havia retomado a posição e estava imóvel.
As grã-mestres, ainda que não gostassem de admitir, eram mais lentas do que ela. Além disso, transmitiam suas ordens por escrito, em um intricado sistema de códigos e lacres de cera. Não teria dado tempo. Nenhuma instrução havia sido dada àquela guarda sobre a saída dela.
A feiticeira virou-se e seguiu deserto adentro.
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Malaika agora estava cercada de areia e rocha. Só havia uma direção a seguir. Depois de alguns quilômetros, viu uma placa fincada com cuidado excessivo na areia. Em letras garrafais, lia-se: “COMIDA GRÁTIS PARA FEITICEIRA VIRGEM”. A promessa não se confirmava: não havia sinal da comida oferecida.
Ela parou a alguns passos da placa. Deveria haver algo diante dela. A isca conduzia quem se aproximasse a um ponto específico. Malaika, como toda iniciada da linhagem S-13B, aprendera a reconhecer aquilo. Armadilhas 101, uma disciplina obrigatória para guardas… não para concubinas.
Saindo da linha direta de aproximação, ela deu um passo lateral e avançou em arco.
— Aqui.
Enfiando a mão na areia, Malaika encontrou o primeiro mecanismo. Fora bem posicionado, alinhado com a trajetória mais provável de quem avançasse sem cautela. Ela o retirou parcialmente, avaliando o ângulo. Disparo ascendente. Não conhecia aquele modelo específico, mas reconhecia o formato. Artefatos assim geralmente disparavam uma rede com pesos nas bordas. Aquele já fora acionado.
Malaika colocou o mecanismo de lado e observou o terreno.
— Segundo melhor ponto.
Nada. Sorriu. Ajustou o eixo, reposicionando mentalmente o centro da armadilha.
— Onde colocariam então?
Malaika deu três passos. Seus dedos encontraram metal novamente. Outro mecanismo igual, instalado em um ângulo mais baixo, com a linha de disparo cruzando a do primeiro. Ergueu a cabeça e olhou para a placa. Deu mais alguns passos, agora dentro do espaço delimitado.
— Será?
A terceira unidade estava posicionada para lançar outra rede sobre o alvo já comprometido.
— Não pode… ninguém seria tão metódico…
Encontrou o último.
Ela olhou novamente para a placa. Era uma isca sem sentido, em uma posição óbvia. Se Selhara tivesse caído naquilo e ainda estivesse viva quando a encontrasse, iria matá-la. Depois diria às velhas que já a havia achado assim.
Malaika pesou uma das armadilhas na mão. Agora tinha uma pista de onde sua irmã podia estar. Seguiu na direção da cidade mais próxima.
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Primeiro mudou o relevo. Depois surgiram os sinais de passagem: marcas de desgaste, sulcos rasos e resíduos do trânsito frequente. A civilização aparecia no acúmulo de vestígios que não pertenciam ao deserto.
A sede da Ordem dos Ungidos foi fácil de encontrar, principalmente por causa do letreiro e da plaquinha indicativa na esquina anterior. Estava fechada. Ao menos, haviam deixado um aviso na porta:
“Fechado para ritual de sacrifício de virgem. Voltamos às atividades regulares na próxima semana.”
Foram gentis em avisar, Malaika teve que reconhecer. Fez o cálculo. Dali a seis dias. Se demorasse tanto, as Imaculadas começariam a pensar que ela também havia fugido. Teria de haver alguma pista. Seguiu pela lateral do prédio e começou a testar as janelas. Todas fechadas. Foi para os fundos. Abriu a mochila. Pegou as gazuas. Viu o tapetinho. “Limpe os pés antes de entrar.” Levantou-o. A chave estava embaixo.
O interior da sede da Ordem estava tão meticulosamente limpo que ela teve receio de resvalar naquele chão. As mesas estavam alinhadas, os quadros em ângulos perfeitos, centenas de livros organizados por autor e edição. Caminhou pelos corredores, abrindo portas, percorrendo salas e salas. Em todas elas, um cartaz na parede com a rota de fuga em caso de incêndio e, ao lado, uma lista de quem seria responsável pela limpeza em cada semana do mês. Nenhuma pista útil sobre onde haviam se enfiado.
Saindo novamente para a rua, Malaika avaliou o entorno. Aproximou-se das casas mais próximas e fez a pergunta de forma direta, repetindo-a com pequenas variações conforme mudava de interlocutor.
Uma senhora disse que aquelas pessoas viviam procurando problema, que já haviam chamado a guarda porque o cachorro dela fizera suas necessidades em frente à sede num dia de chuva, quando não havia como limpar. Um homem comentou que os bardos da rua ao lado precisavam parar de tocar exatamente às dez da noite; caso contrário, recebiam uma advertência formal no dia seguinte. Um comerciante disse que evitava vender para eles sempre que podia, pois entravam com uma lupa para inspecionar cada item antes de comprar.
Nenhum deles sabia para onde os Ungidos tinham ido. Sabiam apenas que, quando fechavam para algum ritual, levavam o que consideravam necessário e desapareciam por alguns dias. Pediram que ela evitasse criar problemas. Contavam com uma semana de tranquilidade, para variar.
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Malaika percorreu, ao longo dos dias seguintes, os pontos mais prováveis nas proximidades. Depressões no terreno, formações rochosas isoladas, antigas estruturas parcialmente soterradas. Eram locais que ofereciam isolamento, espaço e previsibilidade. Nenhum deles apresentava sinal recente de uso. Ainda assim, na falta de um rastro melhor, tudo o que podia fazer era tentar a sorte.
Refez o cálculo. Se não pretendessem demorar no destino, poderiam ter viajado por até três dias. O problema era descobrir em qual direção. Qualquer rastro visível se confundia com o tráfego comum das caravanas. A passagem dos Ungidos era irrelevante diante do comércio consolidado.
Por mais que não gostasse de admitir, teria de aguardar pelo retorno deles. O aviso na porta indicava a duração. A sede continuava sendo o ponto de retorno. Enviaria uma correspondência às velhas relatando o que descobrira até ali e esperaria.
O desfecho mais provável era o sacrifício de Selhara. Então, restava não deixar testemunhas. Mataria os responsáveis e encerraria o trabalho.
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Quando a sede reabriu, Malaika estava lá. Não foi a primeira a entrar. A ficha dela indicava o número 28. Havia perdido quase uma semana. Podia aguardar mais algumas horas.
No início da tarde, finalmente foi recebida. O diálogo fluía bem.
— Vocês assumem, então, ter capturado uma irmã das Imaculadas?
O homem do outro lado da mesa assentiu sem qualquer constrangimento, quase com orgulho.
— Foi por um bom motivo. Nossa intenção era sacrificá-la para cumprir uma profecia. — Tamborilou os dedos na mesa. — Infelizmente, não deu certo.
O homem a olhou, avaliando-a. Depois, não conteve a curiosidade.
— Como soube que fomos nós?
Malaika retirou da bolsa um dos mecanismos e o colocou sobre a mesa. Ainda havia areia presa nas ranhuras metálicas. Um dos presentes se inclinou para observar. Na lateral, lia-se uma inscrição gravada com cuidado excessivo: “Ordem dos Ungidos® — OU-204-00038”
— É um modelo excelente — disse ele, por fim. — Começamos a disponibilizá-lo ao público externo nesta semana. Se quiser uma compensação por termos capturado sua irmã, podemos oferecer quinze por cento de desconto na aquisição de um novo.
O homem continuou:
— Aliás, se você aceitar ser sacrificada na próxima vez que a lua estiver em perigeu, ou nos fornecer outra Imaculada para tal finalidade, podemos chegar a um valor melhor.
Malaika permaneceu imóvel.
— Vou levar a proposta à organização — disse. — Como prova de boa-fé, preciso das informações que vocês têm sobre Selhara.
Era um blefe. Depois do que acontecera nos últimos dias, achava que as grã-mestres poderiam concordar que aquilo era um bom negócio.
— Será um prazer.
O homem se virou e fez um gesto. Um rapaz com uma plaquinha com a inscrição “trainee” trouxe um volume encadernado e o colocou sobre a mesa.
— Essa edição do nosso informativo foi um sucesso. Circulou por todo o continente e esgotou em menos de 48 horas.
Ele girou o volume na direção dela. Na capa, Selhara aparecia presa, ainda com o uniforme da irmandade. Com certo pesar, o homem acrescentou:
— Era para ser o grande evento. Entende?
Malaika observou a imagem por um instante.
— Quantas pessoas viram isso?
— Difícil afirmar com precisão — disse ele. — Os que participaram diretamente, os que chegaram depois… e todos os que receberam o informativo, naturalmente. A tiragem foi de oito mil exemplares. É um periódico para toda a família.
Um dos mais jovens se inclinou com entusiasmo:
— Aliás, podemos tirar uma foto com você para a próxima capa? Depois do fracasso do ritual, os membros vão querer saber que alguém está atrás dela.
Malaika ergueu o olhar para ele e apenas balançou a cabeça.
Decepcionado, ele ainda tentou:
— Podemos ao menos citar que a Irmandade Imaculada está considerando a possibilidade de nos ceder outra iniciada para o sacrifício?
Ela suspirou antes de responder:
— Também é melhor não. A Ordem dos Ungidos já está decepcionada. Sempre há a possibilidade de que o acordo com as grã-mestres não se concretize e vocês precisem pegar outra de nós à força.
O grupo pareceu considerar aquilo uma recomendação legítima de imagem pública.
Malaika fechou o volume e o empurrou de volta.
— Poderiam me dizer onde fica a caverna? Gostaria de avaliar as instalações antes de decidir se aceito ou não ser sacrificada no próximo perigeu.
— A cerca de oitenta quilômetros a leste — respondeu o homem do outro lado da mesa. — Só um momento. Vou pegar um panfleto informativo para você.
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Ao perceber que o fluxo de pessoas começava antes mesmo da entrada da caverna, Malaika reduziu o ritmo.
Grupos pequenos avançavam em intervalos regulares, conduzidos por indivíduos de voz firme e com faixas nos braços. Muitos carregavam bastões com pequenas bandeirolas no topo. Havia ordem, direcionamento e um padrão claro. As pessoas se afastaram ao vê-la passar. Finalmente, uma manifestação de respeito, pensou.
O ar era mais frio sob a rocha, e a luz vinha de pontos distribuídos ao longo das paredes, posicionados para destacar áreas específicas do chão. Havia treze pontos marcados. Em dez deles, um corpo. Não. Bonecos. Construídos com cuidado suficiente para sugerir forma, sem detalhar demais. Cada um ocupava uma posição exata.
— Próximo grupo.
Uma mulher ruiva, com algum excesso de peso e uma prancheta nas mãos, fez um gesto.
— Dois à esquerda, o outro ali.
Moedas trocaram de mãos.
— Lembrem-se de manter a posição. Olhem para frente. Evitem sorrir. Tentem parecer retalhados por uma espada de duas mãos.
Malaika avançou mais alguns passos. A mulher a viu.
— Ah. Finalmente chegou a atriz contratada para reencenar o ritual. Você é perfeita. Praticamente idêntica à original. Só não gostei desse cabelo. — Olhou para um rapaz que aplicava pó de arroz em uma senhora. — Consiga uma peruca para ela.
Passou as mãos nas vestes sagradas de Malaika.
— Sua fantasia de Imaculada está ótima.
— Não sou atriz — disse Malaika. — Eu…
A mulher não a deixou concluir.
— Ah. Então é uma daquelas devotas que vão fantasiadas aos eventos.
Deu as costas para Malaika.
— Dois à esquerda, o outro ali.
Malaika aproveitou para examinar o ambiente. Qualquer pista que tivesse existido ali já fora pisoteada, corrigida e fotografada. A organizadora agora gritava:
— Não, você está fora do alinhamento. Rasteje meio passo para trás. Isso.
Algo não estava fechando. Olhou para o símbolo no crachá da mulher com a prancheta. Depois, para o folheto que trouxera da sede. Foi até ela outra vez.
— Vocês não são Ungidos.
A mulher sorriu, balançando a cabeça.
— Não usamos mais esse termo.
— Por quê?
— Os Ungidos negam o Messias.
Ela fez outro gesto, direcionando o próximo grupo.
— Nós somos os Untados.
Malaika aguardou que ela continuasse.
— Nós aceitamos a verdade. O evento foi cumprido. O ritual foi interrompido, mas a concepção, não.
Malaika manteve o olhar fixo.
— Então ela perdeu a virgindade?
A mulher respondeu, condescendente:
— Claro. Como a profecia sempre quis nos dizer.
Malaika permaneceu imóvel por um instante. Voltar à sede dos Ungidos e dizer que aceitava ser sacrificada no próximo perigeu começou a parecer uma opção razoável. Porém, do jeito que a situação estava indo, eles já nem deveriam ter acesso àquela caverna.
Desviando levemente o olhar, perguntou à mulher:
— Quantas pessoas sabem disso? Quero dizer... quantas sabem que uma Imaculada, hã, concebeu o Messias aqui?
A mulher sorriu:
— Os que creem já se espalharam por todo o reino, levando a boa nova.
Atrás delas, outro grupo era posicionado.
— Segure aqui. — Entregou a prancheta para Malaika e continuou gritando instruções. — Isso. Agora olhe para frente. Pode fotografar.
Mais moedas trocavam de mãos.
Malaika tomou fôlego ao ler a anotação à caneta na última linha da folha superior: “Grupo 280 — 14h20min — PAGO!”
— Onde está a mãe do Messias?
— Não sabemos exatamente.
Ela pegou a prancheta de volta, agradeceu e trocou a página.
— Mas já não é necessário.
— Por quê?
— Porque o que precisava acontecer já aconteceu.
A mulher indicou um altar no centro da caverna.
— Aquele é o local, onde foi concebido o Quarto Filho do Artífice.
Ainda olhando o lugar onde sua irmã se divertira, Malaika decidiu que Selhara não iria apenas morrer. Antes, teriam uma longa conversa, durante a qual aplicaria, lentamente, tudo o que aprendera nas aulas de tortura. Só havia um problema: estava novamente sem pistas.
— Estou realmente emocionada por estar aqui. Quero saber tudo. Quem é o pai do nosso Messias? — arriscou.
A mulher pareceu satisfeita em ouvir isso.
— Foi Kamau, o caçador de dragões. Ainda estamos reunindo informações. Por enquanto, só sabemos que ele estava na Taberna do Abutre antes que a providência o trouxesse para cá.
🐲
A taverna estava mais vazia do que esperava. Alguns Untados tiravam fotos de uma mesa específica. Sobre ela, uma plaquinha: “3 moedas de bronze, 10 minutos”. Um homem de avental falava alto demais. Ninguém o interrompia.
— Como eu disse, ele estava tocado pelo divino.
Ele balançava uma caneca vazia na mão.
— A garota colocou alguma coisa na bebida dele. Eu vi. Não foi pouco.
A caneca subiu um pouco mais.
— Foi veneno, tenho certeza. Suficiente para matar uns dez homens. Ele… apenas dormiu.
Risos curtos. Troca de olhares. Não havia dúvidas de que o divino tocara ali.
— Mas foram apenas alguns minutos.
O homem bateu a caneca de leve na mesa.
— Aí acordou. Ele acordou. — Fez um gesto imitando Kamau se levantando. — E bateu em quem estava perto. Eu estava lá. Olhei nos olhos dele. Havia propósito.
Não era mentira. O olho roxo e o lábio rachado estavam ali como provas. Malaika decidiu se aproximar.
— Então ele não estava sozinho? — perguntou.
— Oh, não.
O homem levou um instante para organizar as lembranças.
— Havia outra caçadora com ele. Tinha cabelos muito escuros. Alta. Musculosa. Pele clara. Usava uma armadura colada ao corpo com capacete em formato de lobo. Estava descalça. — Fez uma pausa curta e inspirou fundo. — Era muito bonita.
Malaika aguardou.
— Chegaram juntos. Mas não se tocavam. Parecia que estavam aqui para negociar alguma coisa.
Alguém perguntou:
— Quando ela fez isso?
O taberneiro continuou:
— Quando ele foi ao banheiro. Ela foi até o copo dele. Despejou um pó avermelhado. Depois, ele bebeu e logo caiu.
Ele apontou para a porta.
— Ela saiu por ali. Com a bolsa que ele carregava.
Malaika não reagiu. Esperou a pergunta idiota. Ela veio.
— Vocês não tentaram impedir?
O homem riu, sem humor.
— Nunca. Eles eram caçadores de dragões. A gente aqui gosta de viver.
Depois, ele levantou a caneca e falou mais alto.
— Somente hoje. A mesma cerveja que o pai do Messias consome, em promoção. Pague duas e beba três.
Malaika esperou que ele terminasse de servir o pequeno grupo. Antes que a história recomeçasse, aproximou-se do taberneiro. Ele a olhou de cima a baixo e falou antes que ela pudesse.
— Se veio pela vaga de garçonete, está contratada.
— Na verdade, não. Gostaria…
— Uma pena, o movimento aumentou muito desde a última semana — cortou ele.
— Estou fazendo uma, hã, pesquisa acadêmica sobre os pais do Messias — disse Malaika. — Por acaso você teria alguma pista de para onde podem ter ido após cumprirem… suas funções proféticas?
Ele coçou a têmpora por alguns instantes.
— Agora que você falou nisso, ele comentou que estava com pressa. Tinha um encontro com Zar’van. Sabe? Aquele doido lá ao norte?
Era uma pergunta retórica. Todo o reino conhecia Zar’van.
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Malaika seguiu com uma caravana de mercadores que partia para o norte na manhã seguinte. Avançaram em ritmo constante, parando apenas o necessário. O deserto se repetia em variações mínimas, interrompido por pontos de água escassos e formações rochosas que serviam de referência.
Depois de mais uma semana perdida, a fortaleza de Zar’van surgiu no horizonte.
Malaika deixou o restante dos viajantes para trás e se aproximou.
Não havia porta aparente. Piscou. Então viu um reflexo. Outro reflexo. Uma refração, bem ali.
Ela foi até a passagem e a atravessou.
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O interior não correspondia ao que havia lá fora. Era um espaço amplo, formado por superfícies lisas. A luz se distribuía sem fonte aparente. Tudo organizado para ser visto.
Uma voz estridente e melodiosa a alcançou.
— Finalmente. Como pude esquecer que ele é sempre tão literal. Mandou mesmo uma feiticeira virgem para mim.
Zar’van surgiu de um corredor lateral. Vestia apenas uma sunga laranja fosforescente. Gotículas de água resplandeciam sobre a pele clara.
— Eu estava brincando com ele. Como sou tolo. Aquele bruto não sabe brincar. — Sorriu para ela. — Como você se chama, minha flor?
— Malaika.
Ele se aproximou até parar a cerca de um metro da feiticeira.
— É lindo.
Zar’van começou a circular ao redor dela.
— Postura impecável. Controle absoluto. Nenhum desperdício. Já está decidido. Vou ficar com você.
Ela fechou os olhos e fez uma pequena intromissão. Entendeu que só havia uma opção.
— Na verdade, estou atrás de Kamau. Depois, minha permanência é negociável. Como você sabe, a Irmandade Imaculada vende, não doa, suas iniciadas.
— Kamau, Kamau… todos estamos atrás dele. Mas não se engane, minha feiticeira: ele só se importa com os núcleos de dragão e com aquele veículo horroroso. Não dá a menor importância para nós. — Zar’van parou diante de Malaika e ergueu o indicador, quase tocando o nariz dela. — Agora, não minta para mim. Não se começa uma longa relação assim. Você não quer Kamau. Quer Selhara. A garota fugitiva que está dando o que falar. Antes que outras meninas frígidas achem que o que ela fez foi uma boa ideia.
Malaika olhou bem nos olhos de Zar’van.
— Onde ela está?
Zar’van deu um leve toque com o indicador na ponta do nariz dela.
— Agora estamos conversando, minha Malaika. Você só fez a pergunta errada para o estágio em que ainda estamos. A questão correta agora é: quão atrasada você está? — Virou-se, dando-lhe as costas. — Mas não se preocupe em repetir. Eu respondo mesmo assim. Dezesseis dias.
Malaika ajustou a informação.
— Eles estiveram aqui no dia seguinte ao ritual.
— Você é muito rápida. Estou fazendo uma ótima aquisição. — Afastou-se alguns passos, satisfeito. — Kamau chegou aqui em um estado deplorável. Atrasado. Com o humor esquisito. Devem ter se roçado o tempo todo dentro daquele veículo. Vieram falar comigo sem ao menos terem tomado banho. — Voltou-se bruscamente para ela. — Abra esses olhos. Vou ter que corrigir essa educação. Você não vai parar de tentar me ler? Odeio isso em vocês. Além de ser uma perda de tempo, faz cócegas.
Malaika abriu os olhos.
— Desculpe, senhor Zar’van. Fiquei curiosa sobre o que você é.
Ele segurou os ombros dela.
— O que é isso, minha querida. Me chame daqui para frente apenas de Zar’van. Vou me sentir um velho se toda manhã for chamado de senhor. Ainda não entendeu o que sou?
Ela balançou a cabeça.
— Então, sou um marquês. Um marchand. Um connaisseur. O Arbiter Elegantiarum deste mundo.
— Isso não faz sentido — disse Malaika.
Ele sorriu.
— Claro que não. Há séculos esse mundo parou de fazer sentido.
Zar’van olhou para uma parede. Um espelhinho e um recipiente cilíndrico vieram voando até ele. O recipiente se abriu, revelando talco e uma esponjinha. Movendo-se sozinha, ela começou a retocar um ponto na bochecha dele.
— Você deixou a borboleta escapar… — disse ele então, com calma — e agora segue uma missão sabendo que a recompensa é a morte.
Soltou os ombros dela.
— Você é trágica. — Abriu os braços. — Amo isso.
Malaika sustentou o olhar.
— Você também é trágico.
Zar’van paralisou por um instante. Depois sorriu, mais suave, mais gentil.
— Ah. Finalmente. — Afastou-se alguns passos e olhou para o céu. — E o pior… não vai dar certo. Eu vi os dois lutando juntos. — Olhou para ela, fingindo desdém. — Tudo bem. Você é igual a eles. Mal chegou e já quer me abandonar. Vai conhecer Kamau e também vai decidir procurar um caçador de dragões para se roçar. Esqueça isso tudo. Esqueça Selhara. Esqueça a mim. Pegue um barco. Vá para o oeste. Há praias maravilhosas lá.
Malaika não se moveu.
— Isso é tudo?
O sorriso de Zar’van voltou.
— É tudo o que você tem. Uma pista que esfriou há mais de meio mês e um bando de velhinhas que vão te punir como se fosse a própria Selhara caso volte de mãos vazias. Mas eu já sei que você não vai voltar para elas. Vai voltar para mim. O quarto 20 é o melhor. A vista dá para as cordilheiras.
Malaika percebeu a própria respiração se alterar.
— Eles têm um carro. E você tem o quê? — provocou o marquês.
Ela não desviou o olhar.
— O que você tem para me ceder?
Zar’van sorriu.
— Uma piscina. — Olhou para o teto. — Só que ainda não está pintado. Não consigo decidir a cor.
Ela ainda estava tentando processar quando ele acrescentou:
— Também posso saber onde ela está se escondendo…
A feiticeira voltou o olhar para ele.
— Mas você não vai me dizer…
Zar’van sorriu.
— Claro que vou. Mas só amanhã.
Acariciou o rosto dela.
— Hoje você é minha hóspede. Vai fazer uma refeição decente. Ter uma noite de sono reparador… e conhecer o quarto que vai ser teu. Pela manhã, continuará essa tua brincadeirinha de pega-pega com tua irmã mais velha.
Malaika cerrou os punhos e depois os relaxou.
Zar’van viu o gesto e acrescentou:
— Só me prometa uma coisa.
— O quê?
— Quando os encontrar… não deixe Kamau te papar também.
🐲
Mal clareara o dia e Malaika já estava pronta. Zar’van se despedia dela, próximo à saída.
— Então, minha querida…
Passou a mão pelo queixo dela.
— Agora você já tem direção.
Malaika sustentou o olhar por um instante.
— Obrigada, Zar’van. — Sorriu para ele. — Você me ajudou muito.
Ele sorriu também.
— Não espalhe. Isso é só entre nós. Logo, você vai se convencer de que eu falei a verdade… — Abriu levemente os braços. — A casa está aberta. É bom ter companhia de vez em quando. Você já conhece o teu quarto e sabe que é bem melhor do que o cubículo enterrado no qual costumava ficar.
Malaika já estava quase na porta quando se virou e falou:
— Amarelo mostarda.
Zar’van piscou.
— Desculpe?
— Uma cor vibrante combina com o sépia da parede. Para o teto da piscina — esclareceu ela. — Vai ficar mais agradável assim.
Zar’van a observou por um instante.
— Que desperdício. Uma garota dessas sendo usada como guarda de uma porta velha.
Malaika não respondeu e partiu. Pela primeira vez desde que começara a procurar Selhara, sentia-se mais leve.
🐲
O clima de Oyo-Zambar era quente e seco naquela época do ano. Kamau empinava a décima quarta ou décima quinta cerveja. Selhara havia tomado a primeira e apenas provado a segunda. Algo estava estranho em seu organismo. Ainda não havia investigado o que era, mas estava cansada de ficar ali vendo as canecas vazias se acumularem sobre a mesa.
— Não quer mais? — perguntou Kamau.
Selhara terminou de engolir o que tinha na boca.
— Não. — Passou a mão na barriga. — Vou ali na rua urinar.
Kamau fez um gesto vago com a mão.
— Ahã.
Ela saiu apressada, temendo não conseguir segurar. O ar do lado de fora estava um pouco mais agradável que a atmosfera fumacenta do interior da taberna.
Selhara deu alguns passos até a lateral do prédio, afastando-se da luz que escapava pela porta.
Abaixou-se. Puxou o tecido até o joelho. Terminou rápido. Ergueu o rosto.
Malaika estava ali, esperando que ela terminasse de se vestir.
Selhara reparou que sua irmã estava com a mesma expressão que fazia quando era punida por algum erro qualquer. Sentiu vontade de levantar, correr e abraçá-la. Antes disso, percebeu que algo devia estar muito errado. Decidiu tentar quebrar o gelo:
— Boa noite, Malaika. Você também costuma vir por aqui?
— Você saiu no meu turno e eu perdi tudo pelo que sofri todos esses anos. Por tua causa — disse, fulminando Selhara com os olhos. — É óbvio que a noite não vai ser boa.
— Posso te pagar uma cerveja, então?
— Pare com isso. Estou há quase um mês dormindo no relento, indo de cidade em cidade atrás de ti. Ouvindo que você é especial. Que está com o Quarto Filho do Artífice na barriga. E te encontro aqui. Em uma taverna. Bebendo agarrada com um caçador de dragões.
Por reflexo, Selhara levou a mão ao ventre.
— Não estou com o Quarto Filho. Isso é impossível. Caçadores de dragões são projetados…
— Não me venha dar aulas sobre o teu amante. Eu frequentei todas aquelas sessões de treinamento — cortou Malaika. — Por que você acha que há um tabu contra nos deitarmos com eles? São modificados durante a concepção para não terem filhos. Não são realmente estéreis. É mais um bloqueio.
Selhara franziu a testa. Lembrou-se então do próprio ciclo, sempre pontual. Gelou. Como pudera se esquecer dele? A menstruação não viera naquele mês.
— O que você quer dizer?
— Não se faça de idiota. O vínculo de uma Imaculada aperfeiçoa o homem escolhido. Cura doenças, prolonga a vida, corrige defeitos… tudo isso já foi estudado. Nunca foi permitida a venda de uma de nós para um caçador de dragões. Nunca explicavam o motivo. — Malaika respirou fundo, olhando a irmã de cima a baixo. — Eu… acho que acabei de entender. E não, eu não venho sempre por aqui. Você deve saber muito bem o que eu vim fazer.
Selhara mordeu o lábio inferior e olhou bem nos olhos da irmã.
— Eu não vou voltar…
Malaika suspirou.
— Meu único consolo é que, quando me executarem, você vai junto. — Fez uma pausa. — Pelo menos me explica por que fez isso.
Selhara desviou os olhos da irmã para seus próprios pés descalços.
— Saí.
Malaika inclinou levemente a cabeça.
— Não houve coerção?
Quando Selhara levantou o rosto de novo, os olhos começavam a marejar.
— Não. Saí porque quis. Porque nunca escolhi aquilo. E porque preferia morrer a continuar lá...
Malaika chutou uma pedra.
— Não. Você não é assim. Eu te conheço desde… droga, Selhara, eu ainda engatinhava e você já estava lá. Você é racional. Sempre foi. Seria uma concubina. Iria viver com um nobre em um palácio. Teria uma vida de regalias. Você enlouqueceu. E teve que enlouquecer justamente quando eu estava de guarda.
Selhara deu um passo lateral, saindo um pouco mais da luz.
— Desculpe, irmã. Se não fosse no teu, seria no de outra. Para mim, estar com ele faz sentido.
Malaika deu um passo para trás. Depois outro.
— Não é sobre sentido. É sobre quebra de protocolo. Sobre decisões individuais que afetam as outras. Você falhou, Selhara. Falhou comigo, falhou com a irmandade.
Selhara apertou os lábios.
— E você acha que consegue corrigir a ruptura?
O espaço entre as duas se encurtou. Malaika fez o primeiro movimento: um soco direto buscando o queixo. Selhara desviou por pouco, já girando a mão para desferir um golpe de faca contra as costelas flutuantes da irmã. Malaika recuou e disparou o calcanhar para quebrar um joelho. Selhara aparou com a sola do pé, já levando a ponta dos dedos à traqueia da irmã. Malaika segurou a mão dela, e Selhara respondeu buscando a mão livre de Malaika.
Mais uma vez, eram irmãs de mãos dadas no meio da noite, sabendo o quanto morrer era fácil naquele mundo.
Fecharam os olhos. Malaika leu a irmã. Selhara foi além, até alcançar o bar e o gigante que, mesmo na vigésima cerveja, continuava praticamente sóbrio. Puxou algo de dentro dele. Descobrira que podia fazer aquilo havia pouco mais de uma semana. Durante o sexo. Brincara com a habilidade nos últimos dias, sabendo que poderia precisar dela. Não pensara que seria tão cedo.
— O que você está fazendo? — disse Malaika, os olhos se arregalando quando não conseguiu mais ler o fluxo dentro da irmã.
— Algo que as grã-mestres não sabiam… ou esconderam de nós.
Malaika não conseguiu perceber a primeira joelhada vir. Nem a seguinte. Quando deu por si, estava no chão, cuspindo sangue. Ergueu os olhos. Selhara continuava ali, com o corpo relaxado. Dentro dela, havia um fluxo que Malaika nunca percebera em outra Imaculada.
— É melhor que você me mate de uma vez — disse Malaika, limpando o sangue da boca.
Selhara permaneceu de braços cruzados. Malaika continuou:
— Por favor. Se eu voltar, vou ser executada. Mais do que isso. Serei torturada antes. Você é minha irmã. É culpa tua. Me dê uma morte limpa, pelo menos. Eu sou uma boa Imaculada. Eu mereço isso.
Ao terminar de falar, uma sombra grande chegou e parou entre as duas. Olhou bem para Malaika e depois para Selhara.
— Não sabia que você tinha convidado tua irmã para nos visitar.
Selhara passou a mão pelo braço de Kamau.
— Não convidei. As Imaculadas a mandaram para me matar. Agora que não conseguiu, está chorando com medo de voltar, ser torturada e executada.
— Ah. Acontece. — Ele olhou novamente para Malaika. — Nessas condições, se eu fosse você, não voltaria. Não me parece vantajoso.
Voltou-se para Selhara.
— Acabou a cerveja. Só vão conseguir mais amanhã. Estou indo para Lumínia. Precisa de alguma coisa aqui?
— Não, vamos só conversar mais um pouco. Acho que ela não vai querer ficar.
— Tranquilo, então. Te espero lá dentro.
Ao sair, deu um tapa estralado na lateral do quadril dela, deixando claros seus planos para a noite.
Malaika se sentou na grama rala.
— Eu até estava reconsiderando aquela cerveja, mas parece que teu dono já esgotou a taberna.
Selhara riu.
— Ele não é meu dono. É simplesmente Kamau.
Malaika balançou a cabeça.
— Você quer dizer que não está ligada a ele até a morte?
Selhara sentou-se ao lado dela.
— Não, quero dizer que isso não importa.
— Explique.
Selhara olhou para o céu, buscando palavras que não pertenciam ao vocabulário das Imaculadas.
— Com ele, me sinto plena.
Malaika seguiu o olhar dela por um instante. Então arregalou os olhos.
— Entendo agora. Aquilo que você fez. O fluxo ficou mais forte do que qualquer coisa que já percebi. Você se ligou ao caçador de dragões. A energia te tentou. Acho… que também me entregaria por algo assim.
Selhara franziu a testa.
— Não é isso. — Buscou as palavras. — Quero dizer que me sinto… inteira. Algo que nunca aconteceu enquanto estava na irmandade.
Malaika assentiu levemente.
— O poder que as grã-mestres não nos passaram. Você sentia falta de algo assim. Podemos ser mais do que Imaculadas. Ir aonde as velhas nunca nos permitiram ir. Por que não me explicou antes, irmã?
Selhara soltou o ar pelo nariz.
— Não… sim. Haver algo assim é realmente preocupante. Fico me perguntando o que mais não nos contaram. Nossa vida é limitada por elas, em todos os sentidos.
Malaika não desviou o olhar.
— Está claro agora. Esse é só o primeiro segredo. A habilidade que você já descobriu. Pode haver outras.
Selhara fechou os olhos por um segundo.
— Como posso explicar para você que não quero ser só uma arma delas?
Malaika sorriu.
— Não precisa, irmã. Já entendi tudo. Podemos ser nossa própria arma. Algo muito maior. Mais forte. Sem as amarras que elas nos impõem.
Ela se levantou e abraçou a irmã, sorrindo. Selhara, sem jeito, retribuiu o abraço.
— Obrigada, irmã. Desculpa por ter tentado te matar, tá? Você me deu muito o que pensar hoje.
Então virou-se e partiu, antes que Selhara conseguisse achar o que mais dizer para ela.
Sentando-se na relva, Selhara tentou decidir qual das duas estava entendendo tudo errado e o quanto a visão de Malaika se aproximava daquela que ela própria tivera ao ler Kamau pela primeira vez, naquela caverna.
O que isso dizia sobre as duas?
Deitou-se e levou a mão ao ventre. Sim, havia algo na profecia sobre o Quarto Filho do Artífice. Estaria ele ali? Inspirou profundamente e voltou a percepção para dentro de si.
Quando abriu os olhos, eles já estavam cobertos de lágrimas.
Era uma menina.



